Sou um individuo? 

Ao nascer recebo logo um nome, ao crescer me tornei filho dos meus pais, depois posso me tornar uma criança rebelde ou ajustada, um adolescente problemático ou promissor, um adulto de sucesso ou um fracassado e assim vai.

Se pratico medicina, sou doutor, se advogo, sou advogado, se prego, sou pastor e se não faço nada sou preguiçoso, o que não falta é rótulo para identificar a “mercadoria”, pois me transformei em mercadoria social, onde a necessidade de identificação tem seu propósito e é cobrada ferozmente, mas também há um risco, quando essa caracterização avança para a área psicológica. Ali ocorrem processos que criam um ambiente onde a identidade se estabelece. E o que é identidade? Parece ser o que me define, as características que representam quem eu sou, e assim me defino perante os outros e para mim próprio. Pronto, já está resolvido, eu sou isso.

Mas há algumas lacunas intrigantes. Se me considero uma pessoa agitada, pois normalmente me comporto assim, eventualmente experimento uma calma passageira. Se me defino como agitado, posso alegar que a calma também ocorre, mas então minha definição não abrange todo o meu conteúdo, pois a calma a contradiz.

Talvez por crescermos em uma sociedade que impõe padrões e ao aceitarmos esses padrões acabamos restringindo nosso olhar em benefício da criação da identidade, que fornece segurança e conforto, pois se alegar que não sei quem sou além dos rótulos impregnados cria um ambiente desafiador difícil de enfrentar, não tem previsibilidade e muito menos garantia.

Portanto, compreender o sentimento de identidade é um desafio formidável quando descobri que pode haver algo além dessa caixinha fornecida pela sociedade, e o que eu sou realmente pode estar além de qualquer padrão que foi imposto ou que foi adquirido por mim mesmo em busca de segurança.

Não é abandonar a segurança, é perceber que não há segurança na identidade, pois basta olhar o mundo dos relacionamentos onde a maioria briga para estabelecer sua identidade perante os demais, isso não é garantia de coisa alguma, e essa sensação que sentia ao pensar que estou estabelecido perante minhas próprias ideias é só uma sensação fornecida por ideias e não uma coisa solida em que há apoio.

Portanto não ter identidade além do nome e outros atributos que são necessários socialmente, é um terreno incerto mas real, e na situação em que me encontro a realidade é mais importante do que a certeza.

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