Quinta Palestra em Madras
Seria de grande significado se você e eu juntos pudéssemos fazer uma jornada no autoconhecimento, na auto exploração. Mas a dificuldade com a maioria de nós é que somos meramente observadores, em vez de participantes; preferimos assistir ao jogo do que ser os jogadores. Seria altamente benéfico se cada um pudesse ser um jogador, e não um mero espectador, como alguém que está pensando, sentindo, vivendo. A dificuldade com a maioria de nós é que não sabemos como compartilhar o que descobrimos por nós mesmos. Não estamos acostumados a descobrir por nós mesmos o processo do nosso próprio pensar, somente a partir do qual a ação correta pode ocorrer.
É possível não ser meros espectadores, mas realmente participar no que está sendo explorado? Somente desta maneira você e eu podemos estabelecer uma plena relação de comunicação entre nós. A maioria de nós tem um relacionamento verbal, mas a dificuldade está em ir além dele para um nível mais profundo, somente no qual pode haver entendimento. A comunicação só pode existir quando há entendimento mútuo; se você entende e eu não, então a comunicação entre nós cessa. Estabelecer o tipo correto de comunicação no mesmo nível ao mesmo tempo é árduo. Seria de grande valor se você e eu juntos pudéssemos explorar os caminhos do ego; e seria totalmente fútil descrever para você os resultados da minha jornada.
Um problema é a busca pela felicidade e a superação do sofrimento. Ansiamos por felicidade e, no entanto, o sofrimento é o nosso companheiro constante. Embora tenhamos lutado frequentemente com esse problema, mesmo assim vamos examiná-lo de forma nova, como se o estivéssemos considerando pela primeira vez. Nenhum problema é velho, pois todo problema está passando por uma constante mudança. Vamos estar conscientes juntos deste problema do sofrimento e felicidade, ao mesmo tempo e no mesmo nível; não apenas me escutem e assumam uma comunicação que não é a sua própria, pois essas palestras, se ouvidas corretamente, trarão uma consciência mais profunda e ampla.
Buscamos felicidade através das coisas, dos relacionamentos, pensamentos, ideias. Assim, as coisas, os relacionamentos e ideias tornam-se muito importantes e não a felicidade. Quando buscamos a felicidade por meio de alguma coisa, então a coisa se torna de maior valor do que a própria felicidade. Quando expresso dessa maneira, o problema parece simples e é simples. Buscamos a felicidade na propriedade, na família, no nome; então a propriedade, a família, a ideia tornam-se muito importantes, pois então a felicidade é buscada por um meio, e então o meio destrói o fim. A felicidade pode ser encontrada por qualquer meio, por qualquer coisa feita pela mão ou pela mente?
Coisas, relacionamento e ideias são tão transparentemente impermanentes, nós sempre nos tornamos infelizes com eles. Buscamos a felicidade através das coisas e não a encontramos nelas; nos relacionamentos, procuramos por ela e também não encontramos felicidade neles, pois há impermanência no relacionamento, embora tentemos nos refugiar nele; novamente tentamos encontrar felicidade no pensamento, nas ideias, na crença, e também ela não está aí, pois um conjunto de ideias pode ser destruído por outro, uma crença superada por outra. As coisas são impermanentes, elas se desgastam e se perdem; o relacionamento é atrito constante e a morte espera; ideias e crenças não têm estabilidade, não têm permanência. Buscamos a felicidade neles, mas não percebemos sua impermanência. Assim, o sofrimento se torna nosso companheiro constante e, superá-lo, o nosso problema.
Nunca nos perguntamos se a felicidade pode ser encontrada por meio das coisas feitas pela mão ou pela mente. Não é inevitável o sofrimento enquanto a felicidade não for o meio e o fim em si? A felicidade pode ser de alguma forma encontrada? Pode existir em si mesma? Só existe felicidade quando cessa a busca por ela. Para descobrir o verdadeiro significado da felicidade, devemos explorar o rio do autoconhecimento. O autoconhecimento não é um fim em si mesmo. Existe uma fonte para uma corrente d’água? Cada gota d’água do começo ao fim forma o rio. Imaginar que encontraremos a felicidade na fonte é estar errado. Ela é para ser encontrada onde você está no rio do autoconhecimento.
Seguir o rio dos pensamentos e sentimentos conscientes e inconscientes, dos motivos e demandas, é muito árduo. Aqueles de vocês que ouviram com atenção devem ter tentado estar cientes de cada pensamento e sentimento e, assim, perceber seu significado. Desta maneira, a mente consciente é liberada de seus conflitos, confusões e antagonismos para receber os pensamentos e insinuações escondidos. Para seguir o rio profundo do autoconhecimento deve haver o esclarecimento do consciente, a percepção do que está realmente acontecendo.
Ao estar ciente das atividades conscientes, os pensamentos e atividades escondidos são entendidos. O consciente é o presente, o agora e, através do presente, o que está escondido é compreendido; o que está oculto só pode ser compreendido por meio de uma percepção intensa, ainda que passiva, do presente; assim, o pensamento se liberta de suas próprias tribulações e obstáculos criados por ele mesmo. A mente consciente está ocupada com os problemas imediatos da existência; sem compreender esses problemas, o pensamento e o sentimento não podem avançar para questões mais profundas e amplas.
A mente consciente está ocupada com os problemas diários da vida: propriedade, divisão de classes, relacionamento e assim por diante. Esses problemas vão se tramando para dentro e para fora da mente consciente; a mente consciente é formada por esses problemas e, se o pensamento não se liberta de sua labuta auto imposta, ele não pode avançar para as profundezas maiores do autoconhecimento. Para seguir o rio do autoconhecimento, o primeiro passo, que é o mais difícil, deve ser dado, pois o início do autoconhecimento é o início da sabedoria. A felicidade não pode ser encontrada por nenhum meio, mas o próprio autoconhecimento é alegria. O amor é sua própria eternidade, assim autoconhecimento é felicidade.
Interrogante: Disseram-me que você não lê nenhuma literatura filosófica ou religiosa. Eu dificilmente posso acreditar nisso, pois quando ouço você, percebo que você deve ter lido, ou você tem alguma fonte secreta de conhecimento. Por favor, seja franco.
Krishnamurti: Eu não li nenhuma literatura filosófica, psicológica ou religiosa, nem o Bhagavad-Gita ou os Upanishads. A fonte secreta está na própria pessoa, pois você e eu somos os repositórios do conhecimento; nós somos o reservatório de todo pensamento e sabedoria. Você e eu somos o resultado do passado, do tempo e, ao entendermos a nós mesmos, descobrimos todo o conhecimento e sabedoria. O autoconhecimento é o começo da sabedoria, e podemos e devemos descobrir a verdade por meio do autoconhecimento.
A sabedoria não pode ser comprada; nem pode ser encontrada através do sacrifício, nem está em qualquer livro, por mais sagrado que seja. A verdade não vem ao seguir qualquer sistema, qualquer líder, qualquer guru. Ela surge quando há percebimento passivo, quando a mente está atentamente receptiva. Há um deleite, há um êxtase incomparável, quando há autoconhecimento. Mas a maioria das mentes está drogada com os pensamentos dos outros, e a imitação e a repetição são inevitáveis. Quando você cita o Bhagavad-Gita, ou a Bíblia, ou o Alcorão, ou algum assim chamado livro sagrado da China, ou algum filósofo ou economista moderno, você é meramente repetitivo. O que é verdadeiro não pode ser repetido e, se repetido, citado, deixa de ser verdade; torna-se uma mentira. Uma mentira pode ser proposta, propagada, mas não a verdade; quando uma verdade se torna um instrumento de propaganda, ela deixa de ser verdadeira.
O autoconhecimento não é uma conclusão, um fim; ele não tem começo nem fim. Você deve começar onde está, lendo cada palavra, cada frase, cada parágrafo do livro do autoconhecimento. Para compreender o seu conteúdo, não deve haver condenação, nem justificação, pois toda identificação e negação põe fim ao rio do autoconhecimento. Para estar desperto para o movimento do ego, deve haver uma certa liberdade, uma espontaneidade, pois um pensamento que é disciplinado, controlado, moldado, nunca pode seguir a corrente rápida do ego. Uma mente disciplinada é formada em um molde e, portanto, não pode seguir as sugestões sutis das diferentes camadas da consciência. Mas existem raros momentos em que a mente disciplinada, a mente drogada, é espontânea, e nesses momentos há uma compreensão das respostas condicionadas, quando o pensamento pode ir além de suas próprias limitações.
A sabedoria não está em um livro, ela não tem uma fonte secreta. Você encontrará o real muito próximo; ele está em você. Mas, para descobri-lo, deve haver uma constante atividade alerta. Quando o pensamento está passivamente consciente, observando e seguindo, então o mapa do autoconhecimento se desdobra. O autoconhecimento não está no estudo do ego em isolamento, pois não existe isolamento. Viver é estar relacionado, e o isolamento é apenas uma fuga. Se o pensamento está passivo de forma alerta, observando seus próprios movimentos e oscilações, então, quando chega o sono, a mente consciente é capaz de receber as sugestões e intimações da consciência que está oculta. Aquele que deseja descobrir o real, o eterno, deve deixar de lado todo livro, todo sistema, todo guru, pois o que existe só pode ser descoberto através do autoconhecimento.
Interrogante: Neste país, atualmente, nosso governo está tentando modificar o sistema de educação. Podemos saber suas ideias sobre educação e como ela pode ser transmitida?
Krishnamurti: Este é um assunto complexo, e passar alguns minutos tentando entender o problema parece um tanto absurdo, pois suas implicações são vastas. Há uma grande alegria em perceber as coisas com clareza. Não nos deixemos enredar e confundir com as noções e ideias dos outros, sejam eles os governos, os especialistas ou os eruditos.
O que aconteceu com o mundo após séculos da chamada educação? Houve guerras, destruição e miséria; duas das mais catastróficas guerras quase destruíram a estrutura que o homem construiu através de sua educação. Vemos que a educação falhou, pois produziu a mais terrível destruição e miséria que o mundo já conheceu. O estado, o governo, estão agora controlando a educação; assim, eles irão se assegurar do que você pensa, pois se você fosse ensinado a como pensar, então você se tornaria um perigo para o governo, para o estado. Quando o estado controla ou guia a educação, deve haver arregimentação para produzir eficiência, e como o mundo moderno exige máquinas, não seres humanos, a eficiência técnica é essencial. É isso que está acontecendo no mundo, não é?
A educação foi controlada por organizações religiosas, pelos padres, e agora é o governo, o estado. O resultado desta educação tem sido desastres e miséria para o homem, e a exploração do homem. A exploração do homem pela organização, pela religião ou pelo estado ainda é exploração e sofrimento para o homem. O homem sendo mais forte do que o sistema, eventualmente ele o rompe, mas infelizmente cai em outro sistema. Não há esperança para o homem enquanto a educação está nas mãos dos padres, ou do governo, ou está nas mãos de quem usa a educação como meio de explorar o homem para o seu partido ou para o seu lucro.
Qual é o propósito da educação, qual é o propósito do viver? Se isso não estiver claro, a educação não tem significado. A educação não pode estar divorciada da vida, que é um processo total. A educação varia de período para período, dependendo do ambiente, o religioso ou o industrial? A educação é um mero ajuste às demandas imediatas do meio ambiente? Se for, então o trabalho é muito mais importante do que o próprio homem; então a máquina, o sistema, é muito mais significativo do que o próprio homem. E é isso que está acontecendo no mundo na atualidade.
Se o significado do próprio homem não for compreendido, então a educação não terá significado algum; então o homem será uma coisa usada pelo estado, pela religião, pelo partido para um sistema e assim por diante. Se você não sabe qual é o propósito da existência, da vida, então por que se preocupar como você é educado? Se você não sabe qual é o seu significado, então você se torna bucha de canhão ou um alvo para bombas atômicas. Se esse é o propósito final do homem, então devemos nos tornar extremamente eficientes para matar uns aos outros. Há mais exércitos do que nunca, mais dinheiro gasto em armamentos e novas formas de destruição do que nunca e há mais técnicos e sargentos. Ainda assim, há mais educação do que antes. O cientista está preso em seu laboratório, o empresário em seus mercados, os viciados em suas especializações, e nem eles nem nós temos consciência do significado da vida.
Qual é o significado da existência? Qual é o propósito desta luta e confusão, desta miséria e dor? Se não o sabemos, então a educação tem muito pouco significado. O propósito da existência é ser livre da luta e sofrimento, ser livre para que o real – o eterno – possa existir, ser livre para que possa haver felicidade. Aquele que é feliz deixa de fazer o mal no mundo; aquele que ama deixa de possuir, de dividir. Um homem feliz, que ama e tem paz em seu coração, está livre de todos os sistemas, políticos e religiosos; ele não é a causa da miséria e da exploração. Para encontrar a realidade, deve haver liberdade do pensar e das respostas condicionadas, liberdade do desejo que condiciona o pensamento e o sentimento.
A liberdade vem por meio de algum sistema de educação, seja de esquerda ou de direita? Os pais, o meio ambiente podem dar liberdade? Nenhum sistema pode libertar o pensamento; um sistema, por sua própria natureza, é vinculativo. O meio cria o fim, um pensamento treinado em um sistema não é livre. O ambiente, o pai, o professor, são extraordinariamente importantes; o educador deve ser educado. Se o educador é confuso, limitado, estúpido, amarrado por superstições, antigas ou modernas, então ele moldará o pensamento da criança de acordo com o padrão de sua estupidez. Portanto, a educação do educador é muito mais importante do que a educação da criança. O educador busca o autoconhecimento de onde vem o pensamento correto, o único que pode trazer uma revolução nos valores? Quase todos os pais e educadores não desejam a revolução de valores baseados no pensar correto; eles procuram segurança, desejam a continuidade das coisas como elas são, com algumas vagas modificações.
É muito mais difícil educar o educador do que a criança, pois o educador já cresceu estúpido. Ele está confuso, busca sistemas como um meio de educar a criança e é levado de um sistema a outro; ele não encontrará o melhor sistema, pois ele é o educador, não o sistema. Se ele é confuso e ignorante, sem autoconhecimento, ele é incapaz de cultivar a inteligência no outro. A criança é o resultado de seus pais; é o produto do passado em conjunção com o presente. A ideia de que, ao se dar liberdade, a criança se desenvolverá naturalmente, de forma inteligente, parece falaciosa, pois, afinal, a criança não está totalmente livre de respostas condicionadas. Como pode o educador despertar a inteligência na criança, se o próprio educador é ignorante de seu condicionamento? A maioria de nós não ama nossos filhos, embora usemos essa palavra frequentemente. Sem amor, você consegue entender o outro? Sem amor, você pode educar outra pessoa? Sem amor, o sistema se torna todo importante, o que produz máquinas, não seres humanos.
O amor é comunhão imediata e compreensão no mesmo nível ao mesmo tempo, e porque os corações estão ressecados, nós nos voltamos para os sistemas, governamentais ou religiosos, como um meio de libertar o pensamento e despertar a inteligência. Porque nós não amamos, o educador, o meio ambiente, se tornam muito importantes, e como o educador é como nós, ele também não tem amor e por isso depende dos sistemas, do mero cultivo do intelecto. Não é o pensar negativo a forma mais elevada de compreensão? Sabedoria não é a aquisição positiva de conhecimento, nem acúmulo de fatos. A sabedoria vem com o autoconhecimento, e sem autoconhecimento não há pensar correto. Os sistemas e projetos de educação não podem resolver o conflito e a miséria do homem. O amor pelos sistemas destrói o amor, e sem amor não pode haver o pensar correto; não pode haver criação. A eficácia e a eficiência do amor é maior do que a eficiência da máquina.
Interrogante: O método tradicional de atingir os adeptos ou os Mestres por meio do treinamento dado pelo homem, ou por meio de seus discípulos, ainda é considerado aberto à humanidade. Seus ensinamentos são dirigidos àqueles que estão nesse caminho?
Krishnamurti: Não há caminho para a realidade. A realidade não pode ser encontrada por meio de nenhum caminho; ela é para ser encontrada através do mar desconhecido do autoconhecimento; o imensurável não deve ser medido pelo caminho do conhecido.
O que é conhecido não é o verdadeiro. O que é conhecido está preso na rede do tempo. Um caminho só pode levar ao conhecido. O caminho para sua casa, para sua aldeia, você sabe – pois você conhece sua morada, seu destino. Mas para o imensurável não há caminho, pois o real não deve ser formulado e, se o for, deixa de ser o real. O que você aprendeu nos livros sobre a verdade não é o verdadeiro. Uma verdade que é repetida deixa de ser verdadeira. É somente uma mentira que pode ser repetida, não a verdade.
Você diz que todos os caminhos conduzem à verdade, mas é assim? O caminho do ignorante e o caminho do homem de má vontade irão conduzir à verdade? Ele deve abandonar a ignorância e a má vontade para encontrar a verdade. Um homem que está preocupado em assassinar em nome do estado – ele pode encontrar a verdade a menos que abandone sua ocupação? Um homem que é viciado em conhecimento – ele pode encontrar a verdade? Ele não deve deixar de lado seu vício para encontrá-la? Um homem de divisão não encontrará a verdade. Todos os caminhos não conduzem à verdade; a parte não levará ao todo.
O homem de ação descobrirá a realidade? Ele não a descobrirá, pois sua abordagem é incompleta. Conhecimento, devoção e ação, como três caminhos separados, não podem conduzir à verdade, mas apenas à ilusão, destruição e inquietação. A própria busca pela realidade exige autoconhecimento, devoção e ação. O homem de mera ação nunca pode descobrir a verdade, nem o homem de mera devoção, nem o homem que está apenas buscando o conhecimento. Os homens de ação, de devoção, de conhecimento não são livres, pois suas várias atividades são auto criadas e, portanto, amarradas; remova o objeto de sua ação e eles se perderão, um devoto se perderá sem o objeto de sua devoção.
A sabedoria não segue nenhum caminho; nenhum Mestre ou seu aluno pode lhe dar sabedoria, felicidade. A própria divisão de um Mestre e um discípulo é uma fonte de ignorância e conflito. Os poucos especiais e o caminho deles é vaidade, e eles pagam o preço por sua segurança. São os imaturos que se sentem os escolhidos, que se apegam ao seu caminho, à sua ação. O maduro, o integrado, pode chegar à iluminação. Um homem que está comprometido com uma determinada ação, com um modo de vida, não é capaz de receber o eterno, pois a parte está sempre comprometida com o tempo.
Por meio da miséria, você nunca pode encontrar a felicidade; a miséria deve ser entendida e, assim, posta de lado para que haja a felicidade. Para que o amor exista, não deve haver contenda e confusão. Onde há escuridão, não há luz, e a luz está quando não há escuridão. O amor está quando não há posses, quando não há condenação, nem auto preenchimento. Você deve se tornar um mendigo mais uma vez, como você era quando começou sua busca. Não se enrede em nenhum caminho, nem se perca em nenhuma organização. Para um homem que é sério em sua busca pela verdade, a busca em si é ação, devoção e conhecimento. Através de uma rachadura na parede, você não vê todo o céu claro; você deve estar ao ar livre para contemplar sua beleza. Há esperança para quem, abandonando todos os caminhos, procura a realidade.
Interrogante: Que profissão você me aconselharia a seguir?
Krishnamurti: Um pensamento está relacionado a outro e, sem dúvida, nenhum problema está isolado. Para entender esta questão, o pensar correto é necessário, e não há pensar correto sem autoconhecimento. Cada ação, cada sentimento e pensamento está inter-relacionado; pensar um pensamento completamente é sentir, pensar, todo pensamento. O que está acontecendo aqui no momento? Você pode escolher a profissão que você gosta? Você pega a que pode conseguir e tem sorte se conseguir uma. Já que perdemos todos os valores, exceto um, o sensório, há uma confusão total no mundo. Você passa por estudos difíceis para se tornar um autômato em um escritório; a estrutura da sociedade é construída sobre a destruição mútua. A sociedade está preparada para destruir; todas as profissões contribuem para a guerra. Uma sociedade é degenerada quando o soldado, o policial, o advogado estão em abundância.
O trabalho de um soldado é matar, e sua própria existência é uma continuação da guerra. Você pode escolher essa profissão? O destino do policial não é feliz; ele está aí para espionar, relatar, vigiar, intrigar. Você pode escolher essa profissão? O advogado, um homem astuto e sem substância, com sua esperteza sustenta a divisão, floresce no conflito; ele se torna o político, capaz de lidar com superficialidades. O político nunca pode trazer paz ao mundo. Você pode escolher essa profissão? Você pode escolher essas profissões que vivem e prosperam na desunião e no sofrimento? Elas não vivem na bondade e no amor, mas da estupidez humana, da ganância e má vontade. Você pode se juntar àquele que está acumulando riquezas através da exploração, da avareza, da ignorância? Então você vê como nossa escolha é limitada. Um médico, um técnico, um artista – eles também têm seus problemas, sua miséria.
Só o pensar correto pode criar uma boa sociedade cujas atividades não sejam prejudiciais ao homem. Não pode haver pensar correto sem autoconhecimento. Você está disposto a gastar tempo para se conhecer, para pensar corretamente, o que criará uma nova sociedade? Aqueles de vocês que não estão presos na tarefa imediata de procurar um emprego podem fazer algo, aqueles de vocês que têm lazer podem cultivar o pensar correto e, assim, criar uma boa sociedade. Essa responsabilidade recai sobre essas pessoas. Mas aqueles que podem, não procuram o pensar correto. Só o pensar correto pode produzir a ação correta; o autoconhecimento produz o pensar correto.
16 de novembro de 1947