Terceira palestra em Madras (Chennai)
A reforma da sociedade só pode vir através da regeneração do indivíduo. Há esperança no indivíduo, em você, não em um sistema, não no projeto de uma sociedade planejada, não em qualquer organização religiosa, mas em você, o indivíduo. O seu relacionamento com outra pessoa é a sociedade, o que faz existir o estado. O estado não é uma entidade separada e incontrolável; ele é resultado do pensamento e da ação individual. Apesar de constantemente afirmarmos, verbalmente, que devemos nos amar uns aos outros, que a vida é uma, que devemos lutar pela fraternidade, na verdade este relacionamento entre os homens está baseado em valores sensoriais. Este relacionamento de valores sensoriais produziu guerras, crueldade, conflito, caos. Esse relacionamento deu origem à iniciativa individual e ao seu oposto, a ação coletiva; tanto a iniciativa individual quanto a ação coletiva estão baseadas em valores sensoriais.
O homem, o indivíduo, você, não encontrou felicidade duradoura nem através das atividades de direita nem das de esquerda; o homem está em desespero, confuso e em sofrimento. A felicidade humana se encontra em valores sensoriais? Ou seja, a sua felicidade se encontra nas coisas feitas pela mão ou pela mente? Somente através do autoconhecimento, a verdade desta questão pode ser descoberta. Uma verdade não é uma verdade quando repetida; ela deve ser sentida, experimentada. Autoconhecimento é autodescoberta. Somente através do autoconhecimento você pode descobrir a verdade e a felicidade duradoura. Autoconhecimento é o percebimento sem escolha do processo real do seu ser inteiro. Este autoconhecimento não pode ser aprendido através de um livro ou através de outra pessoa. Estar consciente da entidade total que você é, estar percebendo os processos conscientes e inconscientes de seus pensamentos, sentimentos, e atividades, é autoconhecimento. O início do autoconhecimento é estar consciente das suas atividades mentais e emocionais.
Sem autoconhecimento não há base para o pensamento e a ação. O autoconhecimento é a fundação para todo pensamento e ação. Se você não se conhece, não pode haver pensar correto e ação correta. Não pode haver uma revolução nos valores se não há autoconhecimento; somente essa revolução nos valores é que irá resolver os problemas do mundo. Como você é o mundo, como o seu relacionamento com outra pessoa é a sociedade, sem uma mudança revolucionária nos valores, que você realiza através do autoconhecimento, não pode haver paz e ordem, nem esperança para essa confusão e sofrimento crescentes. Assim, entender a si mesmo é da maior importância. Falar em transformar a sociedade é totalmente em vão sem autoconhecimento. Afirmamos que os problemas do mundo devem ser resolvidos como se o mundo fosse diferente de nós. Cada um de nós contribuiu para esse conflito, essa confusão, esse antagonismo, essa insanidade crescente, e não podemos colocar um fim nisso se não sabemos como pensar o problema, como abordá-lo, como examiná-lo. A abordagem tem maior importância que o próprio problema. O problema não é o mundo, mas você; você não pode pensar no problema corretamente a menos que esteja consciente dele como o seu problema mais premente e imediato. Você pode não estar consciente dele como se ele estivesse fora de você. Você criou o problema, assim você deve estar consciente de você mesmo como sendo o problema. A confusão em você tem que ser retirada, pois agir em confusão é gerar mais confusão.
A transformação, a regeneração deve começar com você e não com outra pessoa; esta é a abordagem correta. Esteja consciente de suas atividades mentais e emocionais, de seus quotidianos hábitos e ideias, dos seus medos repetitivos, das divisões de classe e comunitárias, dos antagonismos nacionais e raciais. Antes de haver paz no mundo, deve haver paz e ordem em você.
Estamos confrontados com uma das mais extraordinárias catástrofes e com uma confusão que é muito profunda; estamos lidando com ela com sistemas, com formulações prontas, com conclusões deste ou daquele grupo. Para trazer paz e ordem a este caos, deve haver uma revolução de valores; a confusão surgiu pois estamos dominados por valores sensoriais; temos que descobrir os valores eternos. A descoberta dos valores eternos deve ser feita por cada um; a reforma deve começar com cada um. Esteja consciente de cada pensamento e sentimento e, assim, de cada ação; pois a verdade está perto e não distante.
Interrogante: Em um artigo recente de um famoso correspondente, foi afirmado que sabedoria e exemplo pessoal não estão sendo suficientes para resolver os problemas do mundo. O que você pensa?
Krishnamurti: Como há muitas implicações nesta questão, precisamos analisá-las. Pelos correspondentes, que têm seus interesses particulares, somos persuadidos não em como pensar, mas no que pensar; geralmente, nós infelizmente aceitamos o que lemos. A chamada educação nos fez parar de pensar, parar de perceber; escritores e correspondentes tornam-se muito importantes em nossas vidas. Temos que estar conscientes desta tendência em aceitar o que é impresso. Este correspondente e muitos outros reivindicam uma ação política e exemplo pessoal. O exemplo pessoal e a ação política não são suficientes para resolver os problemas do mundo. Algo muito mais fundamental é necessário.
Imitação e conformismo são inerentes ao exemplo pessoal. Conformar-se a um ideal nunca pode diminuir o fardo do sofrimento. O exemplo pessoal em uma grande crise é de muito pouco significado. A sabedoria não vem através da imitação, através da arregimentação do pensamento; a sabedoria não tem morada fixa; a sabedoria não se encontra em muita leitura. A ação política deve ser sempre uma ação parcial, incompleta e, portanto, não verdadeira, causando mais confusão e miséria. O que é necessário é uma revolução no pensar e no sentir. Esta revolução criativa não pode ser realizada por alguns poucos líderes, por uma ação política ou através de um exemplo pessoal. Ela só é possível através do despertar individual. O exemplo pessoal ou a ação política de acordo com qualquer fórmula não salvará o mundo da catástrofe. O homem põe fé em um sistema, em um partido, nos líderes, e eles invariavelmente falharam. Só em você há esperança, não em outra pessoa.
É uma crise humana, não uma catástrofe econômica ou política; todo o ser do homem está envolvido e não uma de suas atividades. O problema não é o mundo, mas você é o problema. Porque você está pensando em termos de conclusões e formulações, de sistemas e padrões, você trouxe para si mesmo e, portanto, para o mundo, esta confusão e miséria. Exemplos pessoais não irão livrar você do conflito e da dor. A revolução nos valores, que o pensar criativo traz, é muito árdua, e assim nós recorremos aos outros, aos líderes, aos exemplos. O pensar que fazemos é uma resposta a um condicionamento e, portanto, não é pensar de forma alguma. Porque você é um hindu, você está condicionado a um certo padrão de pensamento e comportamento – como o muçulmano, como o cristão, etc. Certamente isso não é pensar. Pode haver revolução criativa no pensar e sentir somente quando há libertação do condicionamento, não apenas do que vem da consciência, mas também do condicionamento escondido. Você abandonou ser de qualquer nacionalidade, de qualquer sistema, religioso ou político; você tem que transcender as falácias das divisões sociais e econômicas para pensar criativamente. Você concorda com o que estou dizendo e provavelmente virá aqui domingo após domingo, mas infelizmente continuará no padrão estabelecido de pensamento e comportamento. Portanto, o seu consentimento é muito superficial e, portanto, não tem significado. Se você começar a questionar o padrão e a agir, sem dúvida criará mais problemas e dor para si mesmo; assim, estando consciente disso, você dá o seu assentimento superficialmente, afirmando verbalmente que o mundo está em uma confusão e algo deve ser feito a respeito.
Assim, o problema é você; pois você é o mundo, a massa, o estado. Se você está consciente do conflito e do sofrimento dentro de você, a confusão e a dor, ao transcendê-los você está resolvendo os problemas do mundo. Os problemas organizacionais e políticos são comparativamente fáceis de resolver; as meras teorias e conhecimento dos livros não vão libertar você, e nem o mundo, da confusão e da miséria. O conhecimento dos livros torna-se um obstáculo para a compreensão e a ação direta. Você deve romper o seu condicionamento e esses valores degenerativos que você mesmo criou a seu respeito. Não há esperança nos sistemas, nas ações políticas, nos exemplos impessoais, nos líderes, mas há esperança somente em você mesmo.
Interrogante: O que você quer dizer quando fala que usamos o presente como uma passagem para o passado ou para o futuro?
Krishnamurti: No domingo passado eu disse que, ao usar o presente como uma passagem para o passado ou para o futuro, você está gerando desastre e miséria. Usamos o presente como um meio para um fim, psicológica ou fisiologicamente; o presente é usado apenas como uma passagem para o passado ou para o futuro. O presente é resultado do passado; o que você pensa agora é baseado no passado; o seu ser está fundado no passado. O passado está sempre tecendo do presente para o futuro; o futuro é o passado condicionado pelo presente. O passado só pode ser compreendido através do agora; a porta para o passado é através do presente. Para compreender o significado do passado, o presente deve ser compreendido e não ser sacrificado pelo futuro. Os grupos políticos e religiosos que sacrificam o presente pela futura utopia e esperança, trazem desastre e miséria ao homem. As implicações desastrosas em sacrificar o presente pelo futuro são bastante claras. Os meios são o fim; o fim está nos meios; os meios e o fim não podem estar separados.
O eterno está no presente; o atemporal é o agora. Ele não pode ser abordado através do tempo. No entanto, você está usando o tempo – o passado, o presente e o futuro – como um meio de realizar o imensurável, o atemporal. É preciso estar consciente da falácia de sacrificar o presente pelo futuro e da falácia de que o futuro vai ser diferente do presente. Se você não tem entendimento agora, não terá entendimento no futuro: a sabedoria está sempre no presente e não reside no futuro.
O pensamento é o resultado do passado, e para compreender e assim libertar o pensamento do passado, esteja consciente do que você é agora, dos seus pensamentos, sentimentos e ações; então você perceberá que está usando o presente como uma mera passagem. O processo do tempo não levará ao atemporal, pois o meio é o fim. Se você estiver usando os meios errados, criará fins errados; apenas os meios corretos criarão o fim correto. A guerra é um meio errado para a paz. O meio é o fim e o fim não está dissociado dos meios. Para que haja compreensão do atemporal, isso que está vinculado ao tempo, o pensamento, deve se libertar do passado que, através do presente, se torna futuro.
Interrogante: Os comunistas dizem que os governantes dos Estados Indianos, os zamindars e os capitalistas são os principais exploradores da nação e que eles deveriam ser liquidados para garantir comida, roupas e abrigo para todos. Gandhi diz que os governantes, os zamindars (proprietários de terras) e os capitalistas são os depositários de confiança das pessoas sob o controle e influência deles e, portanto, eles podem ser autorizados a permanecer e funcionar. O que você diz?
Krishnamurti: É muito estranho que em todas as partes do mundo as pessoas saibam o que seus líderes e grupos, tanto os de esquerda quanto os de direita, pensam, mas eles próprios parecem não saber o que pensam. Eles atribuem grande significado ao que os outros, as chamadas pessoas proeminentes, dizem e muito pouco significado aos seus próprios pensamentos. O que é importante é o que você pensa e sente, pois é a sua vida, sua miséria e conflito que está em causa. Consideremos esta questão como se nunca tivéssemos lido um livro nem lido qualquer discurso dos seus chamados líderes. A questão está relacionada com a exploração e como se livrar dela. Como você se torna um zamindar ou um marajá? Certamente explorando as pessoas
Buscar mais do que você precisa torna-se exploração. Você precisa de comida, roupas e abrigo, mas quando eles se tornam o meio de engrandecimento pessoal, então a exploração começa. Usar o outro para obter poder e posição, autoridade e dominação, é exploração. A exploração é o problema e não quem explora. O capitalista, o governante, o zamindar são como você; se você tivesse a chance, você se tornaria como eles. Você perderia sua generosidade, seu amor, no momento em que subisse a escada do sucesso, do ganho.
Os capitalistas, os zamindars, os governantes do estado indiano, eles são administradores de confiança? Para confiar, deve haver amor, mas o amor cessa com a ganância, com o desejo de dominar, de influenciar. O amor cessa quando você dá importância a si mesmo como um líder ou um zamindar. Tanto o líder quanto o liderado exploram, assim como o marajá e o capitalista. Não se deixe persuadir por ninguém sobre o que pensar, mas seja cuidadoso.
O problema é a exploração. A exploração cessa através da ação coletiva, e é aumentada por meio de iniciativas individuais? Sabemos que a ganância individual e o desejo de poder mergulharam o mundo em confusão e sofrimento; também vemos que um estado todo-poderoso pode e de fato explora e produz outras formas de conflito e miséria. Vemos que a ganância e a ânsia de poder no indivíduo, no estado ou no coletivo são destrutivos, cruéis. Ao organizar coletivamente as necessidades do homem, a exploração do ser do homem e do que ele pensa e sente também continua. Com a ambição aquisitiva, sempre deve haver exploração; a ânsia pela ambição aquisitiva deve inevitavelmente gerar exploração. A avidez aquisitiva é sempre psicológica. Quando a ênfase é colocada em você como uma entidade aquisitiva, individual ou coletiva, sempre haverá exploração. Isso não significa que não precisemos nos organizar para o bem-estar físico do homem, mas se o organizador usa a organização como meio de aquisição, então ele e a organização se tornarão meios de exploração.
O homem pode viver em relacionamento com o outro sem ambição aquisitiva, ou seja, sem exploração? Você pode viver em uma sociedade sem ambição aquisitiva? Você pode viver sem mais e mais, sem mais e mais propriedade, o que representa poder, posição e segurança psicológica? Porque você não está disposto a não adquirir e a não usar as necessidades humanas como um meio de auto engrandecimento, tanto os movimentos de direita quanto os de esquerda estão liquidando você à sua maneira. Mas a liquidação, o assassinato, certamente não é o caminho.
Assim, a ganância aquisitiva pode ser abandonada voluntariamente? Você pode abandonar livremente a ânsia de poder – poder obtido por meio das coisas feitas pela mão ou pela mente? Do contrário, a sociedade, os outros, em sua avidez, irá forçá-lo, e então você se tornará uma mera engrenagem, como é agora, em outra vasta máquina social. Esse abandono voluntário da ganância aquisitiva é a saída para essa confusão sufocante. A ganância aquisitiva vem com o desejo de estar seguro; quanto mais confusão, maior o desejo de segurança. Mas existe segurança? Por buscarmos segurança, segurança psicológica, criamos confusão e miséria à nossa volta. A menos que você abandone voluntariamente a ganância aquisitiva, o estado irá controlá-lo e arregimentá-lo; você será explorado então pelo coletivo ao invés de ser pelos indivíduos ou pelos grupos. Se você voluntária e inteligentemente deixar de lado essa ânsia de possuir, então você criará uma sociedade não baseada na compulsão e na exploração.
Para criar uma nova sociedade, você deve transformar radicalmente seus valores atuais, o que exige uma vigilância flexível e uma atenção abrangente; mas sendo apático, indiferente, você será dirigido e forçado, e os problemas do mundo, que são os seus próprios, não são dissolvidos pela compulsão. É árduo entender o significado psicológico mais profundo da exploração e, sem entendê-lo, simplesmente substituir um explorador por outro é continuar na luta e na miséria. Porque psicologicamente, interiormente, você é pobre, sofrendo de solidão, de vazio, as posses feitas pela mão ou pela mente assumem um significado predominante. Esta companhia constante, esse vazio doloroso, deve ser encarado e entendido; então a exploração, que é psicológica, cessará.
Interrogante: Os seus ensinamentos têm a intenção de serem apenas para os sannyasis ou para todos nós com famílias e responsabilidades?
Krishnamurti: Estes ensinamentos pretendem ser para todos, para aqueles que renunciaram ao mundo e para aqueles que estão nele. O renunciante ainda está no mundo de seus desejos ardentes, como o homem do mundo. Ambos são mantidos na escravidão – a escravidão dos valores sensoriais ou a escravidão da mente. Esses ensinamentos trazem liberdade para ambos. A realidade não é encontrada nem nas coisas feitas pela mão nem pela mente; a verdade é o libertador, a verdade do que é. É preciso entender o que é – as paixões e as invejas, a má vontade e a ganância de adquirir – e o entendimento do que é, é sua própria libertação. Percebe-se em raros momentos, quando a mente não está ocupada consigo mesma, quando o eu está ausente, essa verdade que liberta.
O homem de família está preso no mundo de suas próprias responsabilidades. Quanto mais houver confusão à sua volta, mais ele se preocupa com sua família, consigo mesmo, e assim ele busca segurança, o que só aumenta a confusão. Em vez dele próprio entender o significado da confusão, ele procura a segurança de sua família, o que chama de responsabilidade. Ele deve trazer paz e ordem dentro de si mesmo e não fugir desse fato pela busca apreensiva de segurança. O homem que renunciou ao mundo – ele também está preso no desejo de segurança; ele não é diferente, pois está sobrecarregado com as formulações de sua própria mente; elas também lhe trazem confusão e sofrimento. Criação, realidade, é quando a mente cessa de criar.
É possível viver no mundo sem cobiça e má vontade, sem estupidez e aquelas paixões que destroem o homem? Sim, é possível. Você pode rir, mas é possível. Experimente e veja se não é possível. Para viver sem cobiça e má vontade, você deve estar muito alerta, estar consciente de cada pensamento e sentimento; seguir um líder, aceitar conclusões e fórmulas indicam a falta de consciência, que é a única que pode libertá-lo do conflito e da miséria. Sem amor, a família não tem significado, e só o amor pode trazer regeneração e um mundo feliz.
Interrogante: Talvez você já tenha ouvido falar da terrível tragédia que aconteceu e ainda agora está ocorrendo no Punjab. A ação individual baseada no autoconhecimento e no pensar correto pelos poucos que são capazes dessa ação será significativa para a solução deste problema do Punjab?
Krishnamurti: O que está acontecendo no Punjab está acontecendo no mundo todo; não é um problema indiano peculiar – a desumanidade do homem para com o homem. Quem é responsável por esta tragédia? Cada um de nós; cada um está ligado a alguma estupidez religiosa, racial ou nacional. Você não pensa em termos de hindus e muçulmanos, de alemães e ingleses? Não somos seres humanos; somos meros rótulos; como o espírito nacionalista e patriótico está aumentando por todo o mundo, vai haver conflito, confusão e antagonismo. Uma doença tem uma causa e, até que a causa seja removida, não pode haver uma boa saúde. Por gerações, vivemos em um pensar errado e, naturalmente, isso deve resultar em conflito e miséria. Esse caos e miséria é o resultado do cultivo de valores sensoriais; através do percebimento da causa, a causa deixa de existir. A dissolução da causa não é uma questão de tempo, não é de crescimento, mas de percepção imediata. Não percebemos imediatamente por várias razões, uma delas sendo o medo e a consequência da ação imediata. Portanto, embora sejamos capazes de percepção imediata, continuamos em nossos velhos caminhos estúpidos, como é mais conveniente, não exigindo esforço. Você deve despertar para as causas da miséria e do desastre, não amanhã, mas agora. Não construa sua filosofia no tempo, mas esteja consciente do que é, o que levará o pensamento ao infinito.
Interrogante: Você diz que a disciplina é oposta à liberdade. Mas a disciplina não é necessária para a liberdade?
Krishnamurti: Um meio errado só pode produzir um fim errado, um meio certo produz o fim certo. Os meios e os fins não estão separados; eles estão inter-relacionados, eles são um.
Se o pensamento é disciplinado, arregimentado, mantido no sulco do hábito, ele só pode perceber ou entender o que é condicionado, limitado. Se você disciplina sua mente de acordo com um padrão, então você está fadado a produzir um fim esculpido a partir desses meios. Você se disciplina ou por medo ou por ganância, e o fim será moldado pelos seus motivos. Mas onde há ganância e medo, a realidade não está.
Mas você irá dizer: ” Devo organizar minha vida diária, senão não posso fazer nada, e esta organização não é um tipo de disciplina?” Você organiza suas atividades diárias para ser eficiente, para fazer as muitas coisas que têm que ser feitas; para conseguir um resultado, você se disciplina ou se organiza. Mesmo essa existência organizada torna-se um obstáculo à flexibilidade, pois o que é flexível é duradouro. Agora, a verdade é um resultado? Se for um resultado, ela pode ser alcançada por um meio, e um resultado tem uma causa. Mas aquilo que tem uma causa não é mais realidade. A verdade dá liberdade, não disciplina, e por meio da disciplina a verdade não está.
Colocando o problema de forma diferente: você precisa se tornar um bêbado para conhecer a sobriedade? Deve haver uma compreensão das causas que requerem disciplina e sua plena implicação. O desejo de ganhar, de ter sucesso, de ser dirigido e o medo são algumas das causas que provocam imitação, a prática de uma disciplina; estando consciente das causas, o efeito – a disciplina, a conformidade – deixa de existir. Então o problema é deslocado para a dissolução da causa, o que não cria tempo.
Com a consciência, vem a liberdade, não apenas das causas da disciplina, mas de todo o processo do viver. A liberdade só pode vir quando a mente se liberta de seu próprio condicionamento auto gerado, quando não está condicionada a nenhum padrão de pensamento. Quando você descobre ou entende? Somente quando há liberdade, quando seu pensamento e sentimento não estão limitados ou treinados para qualquer padrão de desejo. Uma mente que está em cativeiro é errante, agitada, desordenada. Quando a mente está consciente das causas de sua própria divagação, então já existe liberdade.
O pensamento não pode entender ou formular o que é a verdade; a verdade deve vir até você, você não pode ir até ela. Para receber, deve haver liberdade. Deve haver uma consciência sem escolha – não uma consciência condenatória e identificadora – o que traz liberdade. Só na liberdade pode haver o real, o imensurável.
2 de novembro de 1947